2008-08-31 • Entrevista exclusiva a Nelson Évora
O que aprendestes com estes Jogos? Eu em Atenas já tinha aprendido o que era este espírito olímpico e portanto vim para Pequim já com maior tranquilidade, aguentando com mais facilidade a pressão que é colocada em cima dos atletas. Em Atenas vivi o espírito olímpico mas sem muitas pressões, mas aqui era favorito e já sabia como havia de agir com a pressão e o que tinha de fazer para não a sentir de uma forma tão dura. O que gostaste mais o que gostaste menos na tua estadia na China? Eu gostei de tudo nestes Jogos Olímpicos. É um local em que tudo tem de ser perfeito e é nisso que os chineses se preocuparam. Dentro da aldeia olímpica tudo era perfeito e tentaram que tudo fosse perfeito fora da aldeia olímpica, com muitos voluntários a ajudar os turistas. Por isso não tenho muitas razões de queixa, foi tudo muito bem dirigido e organizado. Que características pensas ter que te tenham levado ao topo? Isto porque há muitos atletas que treinam dias e dias, como tu, e não conseguem lá chegar… Nós temos que ter alguém junto de nós e eu tenho essa sorte de ter um treinador muito bom, que me acompanha desde sempre e que me conhece muito bem. É preciso também sermos muito científicos nos nossos objectivos e saber qual a nossa margem de progressão, o que temos de mudar para chegar além. É preciso também ter os pés muito assentes no chão para sabermos se somos capazes. Isto é algo muito cruel a este nível, porque é um nível de topo e pode até parecer mal o que vou dizer, mas não é difícil. O difícil é planear e termos as coisas bem assentes na nossa cabeça e como havemos de lá chegar. É, por isso, extremamente importante termos alguém ao nosso lado para treinarmos e é preciso ser muito científico e rigoroso para lá chegarmos, embora claro, é preciso ter talento. Eu acredito que para se estar no topo não é preciso algo assim tão exigente, mas para se lá manter e fazer algo histórico é preciso um pouco mais. Eu acredito que muitos atletas e jovens que façam desporto precisam de um bom acompanhamento e juízo na cabeça e verão que conseguem. Eu vejo-me como alguém que tinha talento mas também me tive de agarrar a todos os aspectos que falei para poder atingir o além. A partir de que momento começaste a perceber que isto ia ser a tua vida? Foi em 2003, quando ambicionava ganhar apenas uma medalha no Campeonato Europeu de Juniores, e acabei por ganhar duas e a partir daí comecei a ver que era possível tornar-me num atleta sénior de topo. Para isso teria de trabalhar muito e recomeçar tudo de novo. Aqui a este nível é necessário fazer vários “refresh”, desde aprender a correr, aprender a saltar, aprender o movimento de braços, aprender a fazer o movimento rotativo e é mesmo preciso fazer vários “refresh”. Um atleta está em constante mudança para melhorar e embora tenha as suas bases, necessita de fazer estes “refresh” e eu tenho-o feito, tendo este ano feito uns dois ou três, ao nível do trabalho de braços, trabalho de corrida, ritmo de corrida, respiração, tudo… Nós sabemos que Philips Idowu estava mesmo convencido que ia ganhar…como é que ficou o vosso relacionamento depois da tua vitória? Houve algum tipo de ressentimento? Eu não tenho ressentimento algum. Nós não temos uma relação próxima, é um atleta que é muito fechado. A época correu-lhe muito bem e chegou lá com excesso de confiança, sem ver que havia outros atletas e, não foi coerente na sua análise. Ele agora sente-se frustrado, está em fase de negação, é isso que eu vejo. É um atleta que não conseguiu respeitar os seus adversários, perdeu e não soube perder. No desporto é preciso saber perder, ter respeito pelos adversários, sem nunca os inferiorizar, mas ele não o fez e o que lhe está a acontecer é fruto da auto-confiança excessiva. Ele tem 29 anos e tem poucas oportunidades de ainda ser campeão olímpico e está a exprimir-se de outra forma. Se ele acha que é melhor devia ter ganho a prova, porque o melhor é quem ganha e não quem fica em segundo. O que sentiste mais falta na tua alimentação em Pequim? Sentiste dificuldade em adaptar-te à alimentação? Eu não tive nenhum tipo de dificuldade porque eu comi todo o tipo de coisas. Optei ao início por comer as coisas mais saudáveis como as massas, as pastas e quando me fartei tive de recorrer à comida que todos comem. São muitos dias lá e a comida seria muito repetitiva e convinha variar. Acho que correu tudo bem e deu resultado. Já alguma vez durante o sono sonhaste ser campeão olímpico? E passar dos 18 metros? Sim, já sonhei ser campeão olímpico e passar os 18 metros. Posso dizer que já senti o que preciso de fazer para atingir os 18 metros. Eu e o meu treinador acreditamos que tenho os 18 metros nas pernas e neste momento tudo depende de uma série de factores, como por exemplo o dia, uma pista rápida, não chover e apesar de ter sido campeão olímpico e de tudo me ter corrido bem estava a chover, algo negativo para os saltadores. Não saiu, mas não estou preocupado com isso porque dentro da competição dei o melhor que tinha de mim. Sei que em Pequim acompanhaste as mensagens de apoio através do teu site. As mensagens de apoio foram de alguma forma importantes para ganhares alguma força e motivação? Claro! É bom saber que há muita gente que já vai ao meu site para acompanhar a minha prestação, as informações verdadeiras sobre mim, porque a maior parte da informação que saem em revistas sobre mim não é verdadeira. Eu fico muito feliz que as pessoas deixem lá a sua mensagem de apoio e aproveito para dizer que acompanho diariamente o meu site e é algo que me deixa feliz. É um espaço meu, em que eu posso estar mais directamente ligado com os meus fãs. De alguma forma pretendes estar mais perto dos teus fãs? Notámos que tem havido muito apreço pelo Nelson, desde pessoas mais novas, a mais idosas, muita gente gosta da tua forma de estar e de competir. Isso é uma imagem de marca? É bom sabermos que abrangemos um leque de idades bastante alargado e que não são apenas os jovens que me acompanham, mas também pessoas mais idosas, que gostam de desporto e que se identificam também com esse lado desportivo. Isto tudo é óptimo e não sendo uma imagem de marca é um depositar de confiança em nós e que nos faz dar mais vontade de representar todo o conjunto de pessoas que nos apoiam por trás. Quais serão as tuas próximas provas? Serão o Meeting de Lausanne (dia 2 - Suiça) e depois a “World Athletics Final” em Estugarda (dia 13/14 - Alemanha). Espero saltar bem, sem ambicionar nada…Já sei que Philips Idowu não estará presente, infelizmente. Ele insiste em ir a meetings de segundo plano, em vez de ir a meetings de primeiro plano. É um pouco triste esse jogo que ele faz porque os atletas têm de se exprimir na pista, não é evitando os meetings principais. Se ele assim não o faz, nada posso fazer… Para o ano são os Mundiais, onde defenderás o teu título mundial. Pensas passar a barreira dos 18 metros? Penso aproximar-me e tirar centímetros aos 18 metros, o mais rápido possível para ter aquele conforto…Quero é ganhar centímetro a centímetro, imaginar uma régua e todos os dias bater o meu recorde pessoal, cortar um pouco dessa régua até chegar ao objectivo final. É algo que acho que vai acontecer com naturalidade. Quando falamos de treino, qual o exercício que é mais fundamental para se saltar tão longe? Depois de muitos “educativos” e muitos exercícios que correspondem a x ou a y, a melhor forma de aperfeiçoar isso, é saltando. No próprio treino é positivo colocar-me em situação de prova, com corrida completa, saltar, sendo a melhor forma de fazer ajustes. Melhoraste bastante desde os Mundiais de Pista Coberta para os Jogos Olímpicos de Pequim. Consegues dizer se uma sessão de Inverno típica é diferente de uma sessão de Verão? Este ano fiz uma preparação progressiva, tendo sido a Pista Coberta uma passagem e não um objectivo. Como gosto de competir optei por ir, mesmo sabendo que poderia perder. Acabei por não perder e sim ganhar, porque ganhei experiência e mais uma medalha e, embora tenha sido a de Bronze, eu fiquei feliz, porque não estava preparado para aquela prova. Quem olhar agora para trás e for ver os meus vídeos daquela competição, não tem nada a ver com a harmonia de salto que fiz agora em Pequim. Eu estava numa fase de treino forte, não liguei muito à Pista Coberta e foi nisso que a imprensa internacional se fixou, nos 17.75 do Philips Idowu, na sua regularidade acima dos 17.50 metros e que seria favorito em Pequim. Eu optei por uma outra estratégia e deu resultado. Consegues dar um exemplo do teu tipo de treino? Um saltador ou um velocista têm treinos muito idênticos. Hoje em dia o método de treino está muito igual. Simplesmente a dose daquilo que fazem depende um pouco de cada especialidade. Um saltador necessita mais de salto, mas faz lançamentos, faz velocidade e musculação. Um atleta do peso lança mais, faz mais musculação, também salta e corre. O segredo está mais no treinador conhecer bem o atleta e perceber onde estão os seus erros. Mas hoje em dia já não é só o aspecto físico, mas também o mental, que começa a ser trabalhado. Se tivesses ido treinar para outro país, pensas que tinhas capacidade de chegar onde chegaste? Não! Eu tenho tudo o que preciso, do apoio da minha família, dos meus amigos, tenho tudo cá…tenho um bom treinador, amigo e conselheiro. Acho que se estivesse no estrangeiro não teria feito metade do que fiz agora. E caso tivesses noutro país, sem conhecer o muito que tens hoje. Achas que tens aquele dom que serias bom em qualquer sítio? Acho que os atletas que fazem bons resultados conseguem-se exprimir em várias áreas e facilmente conseguem destacar-se. Eu optei pelo Triplo Salto, mas podia ter optado pelo andebol, pelo futebol, pelo basket. Eu estou num espaço em que sou limitado por esse mesmo espaço. Se eu estivesse nos Estados Unidos da América talvez estivesse numa modalidade colectiva, que tem mais expressão. Acho que o espaço em que estamos nos limita e eu sou resultado disso também. Fazes parte do pequeno lote de atletas portugueses que já obteve uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Antes de ti atletas como Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro foram inspirações para gerações. Agora, por certo, irás tornar-te inspiração para alguém..até já se vêm jovens a saltar nas praias, a fazer triplos saltos esquisitos..isso satisfaz-te? Claro que me satisfaz! É bom saber que temos alguma influência nas escolhas das brincadeiras dos míudos e nas suas escolhas futuras em termos desportivos. Assim dentro de 7/8 anos veremos mais atletas a saltar e a fazer bons resultados e se calhar eu serei uma inspiração para eles, como outros foram para mim… Julgas que a curto prazo terás outros atletas nacionais a acompanhar-te nas tuas provas de Triplo e Comprimento? Eu adorava! Como se pode ver, pelo número de atletas por país nas finais, alguns atletas russos e cubanos participam e era bom que tivéssemos dois atletas portugueses. Dava um pouco de mais de confiança e é muito bom para a evolução do país também. Parabéns por seres o novo campeão olímpico e por nos dares tantas alegrias! Obrigado! Entrevista conduzida por Edgar Barreira e Rafael Lopes. Um agradecimento especial ao Pestana Palace (www.pestana.com), em Lisboa.