2009-02-27 • «Não quero treinar mais ninguém, o ciclo acabou»
A CARREIRA DE ATLETA: Sabemos que foi um grande saltador em altura, ainda se lembra de como foi a competição em que saltou 2 metros? Sim, foi na final de clubes entre Benfica e Sporting em 1972. A prova realizou-se no Estádio do INATEL (1º Maio), sendo a pista de cinza, e estando nesse dia um pouco enlameada tendo eu ao saltar feito um grande buraco durante a chamada. Enquanto atleta pensou alguma vez que poderia vir a ser um treinador de referência? Não! Porque quando abandonei o Atletismo (com cerca de 26 anos), após ter concluído o curso do ISEF, já casado e com um filho, deparei-me com a necessidade de trabalhar na área da ginástica para poder ganhar mais algum dinheiro. A CARREIRA DE TREINADOR: Em que momento tomou a iniciativa de ser treinador? Como aconteceu essa possibilidade? Com a criação de um núcleo de atletismo na Escola Secundária da Ramada, com a forte adesão dos jovens, quer dessa escola, quer de outras envolventes e com a inclusão nesse grupo dos meus filhos e do Nelson decidi ter uma dedicação total. Como era trabalhar com o atletismo em Odivelas, englobado no atletismo concelhio em Loures? Foi óptimo e agradeço terem acreditado em mim, quer a Escola, a Junta de Freguesia e sobretudo a Câmara Municipal de Loures, pois dotaram a escola com o material que mais necessitei. O TREINO DE NELSON ÉVORA: Quais as diferenças, ao nível técnico, que encontra entre o Nelson Évora no FOJE (2001), no Europeu de Juniores (2003), no Mundial (2007) e nos Jogos Olímpicos (2008)? 2001 / 2003 – Por se dedicar ao comprimento e triplo, não tínhamos ainda noções muito exactas sobre a sua opção e mesmo os nossos conhecimentos estavam numa fase de crescimento. 2007- A nossa maturidade, conhecimento, experiência internacional e ambição era muito maior e já acreditávamos num grande sucesso, para isso contribuiu a evolução técnica do Nelson a nível da corrida de balanço e trabalho de braços. 2008- Depois da vitória no mundial procurámos alterar sobretudo o trabalho de braços na chamada, o que veio a criar maior equilíbrio nas fases seguintes. Em que medida têm sido importantes os aconselhamentos de treinadores portugueses e estrangeiros na carreira de Nelson Évora? Devido à falta de tradição nesta especialidade, foi fruto de uma busca constante de conhecimento, baseada em primeiro lugar na minha experiência como treinador e mais tarde com alguns treinadores portugueses nomeadamente os Professores Alcino Pereira, Miguel Lucas e José Barros, sendo que o grande impulsionador foi o falecido Prof. Roberto Zotko. Presentemente tenho tido algum contacto esporádico com alguns treinadores Espanhóis e Brasileiros e depois de tudo o que testámos posso dizer que já tenho uma linha orientadora, que acredito nela e poucas alterações introduzo. O FUTURO Os 18 metros para Nelson Évora serão um objectivo facilmente alcançável? Penso que se o Nelson treinasse em condições mais favoráveis já teria acontecido. Quando o Nelson estiver em óptima forma física e técnica, poderá acontecer a todo o momento. Se tivesse que dar uma previsão, em que momento da carreira de Nelson poderia ser mais provável um ataque ao recorde do Mundo de Triplo Salto? Um triplista segundo dados estatísticos atinge o máximo de rendimento pelos 27 /28 anos, contudo só o futuro nos dirá e será para nós um objectivo de carreira. Finalizando a carreira de Nelson Évora, terminará a sua carreira de treinador. O que pretende fazer a seguir? Não quero treinar mais ninguém, o ciclo acabou. Poderei se me quiserem aproveitar dar apoio a outros treinadores a nível do treino ou através de outros eventos, não passando pela minha permanência constante no terreno.